Poderá a internet salvar a conservação?

Do original “Can the internet save conservation?
Por Richard J. Ladle
Tradução de Felipe Moreno

A conservação da natureza já foi uma das forças de definições culturais do século 21, mas há indícios de que sua influência está diminuindo: pesquisas sugerem que áreas protegidas estão sob pressão para justificar sua existência em face da concorrência com outros usos da terra, e a sociedade como um todo está se tornando menos interessada na natureza. Em seu seminário no STEPS, Bill Adams nos lembrou que “conservação nunca sairá da sociedade, mas também nunca se livrará da política”. Isso gera dois imperativos de conservação para o futuro: 1) se envolver de forma proativa com a revolução da informação, a fim de manter a conservação visível no mundo acelerado de hoje, e; 2) revigorar e demonstrar o apoio popular para a conservação a fim de apoiar a sua influência cultural e política.

A nossa capacidade de fazer este último foi limitado pela dificuldade e pelos custos de fazer o levantamento de pessoas regularmente e em grande escala. A boa notícia é que as pessoas deixam pistas sobre suas interações com a natureza quando se comunicam uns com os outros – através de livros, sites, publicações no Facebook, tweets – e através de suas pegadas digitais (histórico de pesquisas no Google, por exemplo). Desde que palavras são representações simbólicas de conceitos, lugares ou objetos, a frequência com que palavras e frases são usadas dentro dessas plataformas de comunicação fornece informações sobre a cultura humana e como ela muda. O estudo formal da cultura humana através da análise de mudanças na frequência de palavras em grandes corpos de textos é conhecido hoje como culturômica.

Em um artigo publicado este mês na Frontiers in Ecology and the Environment, argumentamos que a culturômica detém a chave para a compreensão e potencial para moldar as interações humanas com natureza. Nós identificamos cinco áreas-chave onde a culturômica pode contribuir significativamente para a prática da conservação:

DEMONSTRAR INTERESSE PÚBLICO

A conservação precisa mostrar que as pessoas estão interessadas nas questões ambientais, se for preciso para chamar a atenção dos políticos e tomadores de decisões. O método “culturômico” pode ser pensado como uma forma de pesquisa, embora seja uma que, na verdade, não faz qualquer pergunta direta. Por exemplo, Eric Phu usou a culturômica para extrair informações de 1,2 milhões (!) de conversas sobre o equivalente chinês do Twitter, o Sina Weibo. Ele demonstrou claramente que, ao contrário da opinião popular no ocidente, os cidadãos chineses se preocupam profundamente com o meio ambiente e são geralmente contra o uso de marfim de elefante.

IDENTIFICAR EMBLEMAS DA CONSERVAÇÃO

As pessoas valorizam o que elas sabem, e as sociedades agem para conservar seu patrimônio. Espécies icônicas e emblemáticas são uma das maneiras mais importantes com que a conservação pode se conectar com a sociedade, mobilizando apoio para a conservação, proporcionando uma sensação de nação, e estimulando a curiosidade e admiração das pessoas. A culturômica nos permite avaliar sistematicamente a visibilidade cultural das espécies e, potencialmente, identificar novos ou subutilizados ícones, emblemas ou carros-chefes.

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MONITORAMENTO E AVALIAÇÃO AMBIENTAL

Quando alguém pesquisa ou posta algo na internet, muitas vezes há informações valiosas sobre o estado do ambiente. Por exemplo, a frequência e distribuição geográfica de buscas na internet para a rinite alérgica nos diz algo sobre a predomínio de pólen na atmosfera. E não é só espécies comuns que aparecem na internet: uma nova espécie de drosera foi descoberta recentemente no Facebook. Mais seriamente, os cientistas foram capazes de rastrear e quantificar comportamento de caça ilegal através da procura de vídeos no Youtube.

Os estudos acima são apenas a ponta de um enorme iceberg. Com o aumento do uso do recurso de GPS em smartphones, a análise culturômica nos permitirá no futuro descobrir onde e como as pessoas estão apreciando a natureza – informação vital para uma gestão eficaz.

IMPACTO CULTURAL DA CONSERVAÇÃO

Iniciativas de conservação obtém maior sucesso quando elas atraem interesse público. No entanto, no passado, este interesse tem sido muitas vezes difícil de medir e raramente foi investigado. A culturômica oferece uma maneira barata e poderosa para avaliar a reação do público aos acontecimentos de conservação, como a reintrodução de espécies, novos navios de conservação ou a revelação de uma nova área protegida. Um exemplo simples é o impacto sobre a consciência cultural para escolher um mascote baseado na natureza para um megaevento: houve um grande aumento nas buscas do Google (em inglês e em português) para o brasileiro tatu-bola-da-caatinga (Tolypeutes Tricinctus) quando foi revelado inicialmente como o mascote para a Copa do Mundo FIFA 2014 e enquanto a copa estava sendo jogada. Em parte, estimulado pelo aumento da preocupação pública, o governo brasileiro rapidamente designou uma nova reserva de vida selvagem para essa espécie pouco carismática.

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CONCEPÇÃO DO PROBLEMA

A forma como algo é compreendido pelo público determina as soluções consideradas adequadas e como é elas são amplamente adotadas. Conservação, portanto, precisa ter um bom controle sobre a compreensão do público, para maximizar o seu impacto na sociedade. Por exemplo, a culturômica mostra que, embora a ideia do “equilíbrio da natureza” ainda ressoe fortemente em todas as sociedades, ela já não faz mais parte do discurso científico.

O FUTURO

O método da culturômica é uma ferramenta extremamente poderosa para investigar as interações humanas com a natureza. No entanto, existe um problema: muitos dos bancos de dados que gostaríamos de usar só estão disponíveis através de terceiros (pesquisas do Google, por exemplo) que não foram projetados para análise científica. De fato, uma simples pesquisa para as frequências relativas dos nomes de diferentes espécies de aves em páginas da web requer várias etapas técnicas, tais como desengatar a “personalização” incorporada em todos os motores de busca comerciais.

Em contraste com as abordagens tradicionais de levantamentos topográficos, a pesquisa culturômica realmente não lida com “dados brutos” – ela usa informação produzida a partir das interações entre seres humanos e máquinas digitais. Até agora pouco se sabe sobre essas interações, apesar de existirem acadêmicos de todo o mundo que estão estudando intensamente todos os aspectos destas questões. Nós recomendamos fortemente que conservacionistas aderem a este programa de pesquisa, inclusive, de usar a culturômica para explorar o mundo digital. Ao fazer isso, podemos gerar insights sobre não só como a cultura interage com a natureza, mas como essas interações estão mudando no tempo e no espaço.

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