A importância da fama das aves brasileiras na internet

picapauamarelo

Por Felipe Moreno

Se te pedissem para twittar o nome do primeiro pássaro que te viesse à cabeça, qual você colocaria?

Pelo menos na web, um brasileiro provavelmente pensaria primeiro no pica-pau – e não vá pensando que é só por causa daquele danado que você via na TV aberta quando criança. O pica-pau amarelo do sítio da Dona Benta anda fazendo bastante sucesso por aí.

É o que diz o artigo “Familiarity breeds content: assessing bird species popularity with culturomics” do pesquisador Ricardo Correia. Este seu trabalho sobre a popularidade das espécies de pássaros brasileiros rendeu uma publicação na PeerJ, famosa revista científica eletrônica de acesso aberto.

Em seu artigo, Ricardo explorou a ideia de definir o interesse público em algumas espécies de aves no Brasil e no mundo, e então saber as características relevantes que tornam uma espécie popular ou não. Todo esse estudo só foi possível graças a uma técnica emergente chamada de culturômica, que basicamente transforma impactos culturais em dados quantitativos.

Tendências culturais, para ser mais preciso. E esse é o pulo do gato.

CULTURÔMICA E BIG DATA

Cultura é um conceito muito amplo. O verdadeiro foco da culturômica é quantificar tendências culturais através da análise de um gigantesco banco de dados online, a já conhecida big data. A técnica foi concebida há oito anos por uma equipe de professores de Harvard que tiveram a corajosa ideia de analisar todo o acervo do Google Books buscando por traços de evolução na gramática inglesa. E adivinha? Eles tiveram não só o resultado satisfatório, mas também acabaram criando uma subdisciplina científica que não para mais de crescer.

Leia mais: Você sabe o que é big data?

Para o estudo, foram avaliadas um total de 236 espécies dentro de quatro tipos de aves tipicamente brasileiras: beija-flores, tucanos, papagaios e pica-paus. Utilizando um mecanismo de busca customizada do Google, as pesquisas foram dividas para sites brasileiros e para sites internacionais, uma vez que as palavras buscadas são diferentes em função do idioma, e isso afetaria diretamente o resultado. A familiaridade das espécies, o apelo estético e o interesse de conservação foram usados como fatores nas avaliações, e a partir daí, a medição da popularidade das espécies dentro e fora do Brasil.

CÁLCULO PRA LÁ, CÁLCULO PRA CÁ…

Em sites brasileiros, o pica-pau provou ser o mais popular do colégio. Já nos sites internacionais, foram os papagaios que se deram bem, e os beija-flores ficaram em último em ambas pesquisas. Mas o legal mesmo acabou sendo a definição do perfil cultural das espécies, mostrando o que fazia elas serem tão populares e outras não.

No Brasil, fazer parte da cultura brasileira foi imprescindível para que a popularidade fosse bem avaliada. O pica-pau amarelo, por exemplo, deve seu primeiro lugar à obra de Monteiro Lobato que além de ter grande profundidade cultural, já foi por diversas vezes adaptado para o teatro e para televisão. O pica-pau do clássico desenho animado vai pelo mesmo caminho. Já lá fora, o estudo mostra que os gringos se amarram mais nas características fenotípicas, como tamanho, voluptuosidade e cores, uma vez que as três primeiras espécies mais bem colocadas são araras comumente expostas em jardins zoológicos lá fora. A animação indicada ao Oscar “Rio” também deu uma ajudinha à ararinha-azul se manter bem colocada no ranking.

rio

Infelizmente, o estado de conservação não teve grande relevância como característica na avaliação de popularidade, e isso é ruim, já que pode representar uma brecha do movimento de conservação em divulgar espécies em risco de extinção.

Dessa maneira, o estudo demonstra a força e a importância do valor cultural das espécies na sociedade, já que com o potencial imenso da internet, o uso do big data pode ser valioso com impactos positivos que podem ir desde os esforços e apoio na conservação até a influência direta nos tomadores de decisões.

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